DURMONT,
o Escritor

Eu, Durmont– ou Durmond? — sempre tive uma teoria.
Uma... hum… várias...
E eu, Durmont, ou Durmond, moi même, desde que me lembro, amo livros.
Amo... hum... como livros... devoro livros... escrevo alguns... penso em muitos... sonho com eles... leio outros...
E ainda eu, moi même, tenho um fraco por histórias verídicas.
Não sei bem porquê, é mais que uma atracção. A história até pode não ser grande coisa, será sempre quelque chose, terá sempre alguma coisa que me faz vibrar, alinhar, entender...
Porque eu, Durmont-Durmond amo pessoas.
Pessoas... hum... seres vivos... e não vivos... e não seres, amo histórias, amo o Amor.
E tenho uma teoria: todas as histórias são verídicas.
Mesmo que rotuladas como a maior ficção há sempre um quê de verídico em cada uma ou não fossem contadas por alguém.
Há sempre a verdade de cada um numa frase, num conto, num romance, num ensaio, num poema, num, numa, nuns, numas...
Pois que então todas as histórias me atraem.
Menos as de terror…
Desde a minha infância.
A minha infância foi profícua em literatura. Mãe leitora e poeta, pai leitor e filósofo, livros por todo o lado.
Aos onze anos eu, Durmont ou Durmond, lia de tudo, livros infantis, livros juvenis, livros adultis...
Quando me punha a ler livros adultis fechava a porta do quarto– o quarto tinha assim um recanto na entrada– sentava-me no chão por detrás dela, empurrava-a com as costas, pés fincados na parede em frente, just in case...
Não fosse o meu pai dar comigo a ler livros adultis.
Foi assim que li o primeiro volume do Padrinho e o Indomável, parêntesis, título original, Never Love a Stranger e os Insaciáveis.
Aos onze anos eu, Durmont e Durmond, escrevi o meu primeiro livro. Manuscrito. À mão, mesmo, ah, ah! Porque agora ainda se chama manuscrito a uma história que foi directamente escrita ao computador. Juvenil, c’est vrai, inspirado nas aventuras dos cinco.
Os Quatro Mergulhadores.
Lido e relido pelos meus irmãos, ligeiramente mais novos, meu público entusiasta.
Logo a seguir, eu, Durmont, moi même, escrevi o segundo. Juvenil, of course, inspirado sei lá em quê. Já não sei o título, nem sei se tenho o manuscrito para ali na arrecadação. Passava-se no circo.
Eu, Durmont-Durmond, era um artista de circo, jovem, claro.
Animais por todo o lado e, o mais importante ainda, de um circo, o tope dos topes, os trapezistas! O protagonista era trapezista, que outra coisa poderia ser? Ah! Também andava na corda-bamba! Percorria-a de lés a lés, descalço, com a leveza de um pássaro multicor.
E num caderno escrevia todos os títulos de todos os livros que iria escrever nesse ano e nos seguintes. Muitos! Alta produtividade.
Produtividade... hum... criatividade... entusiasmo... calor... paixão… alegria...
Alegria da alegria de ler muitas histórias, de todas as formas e feitios.
Aí, aos onze anos, li as minhas primeiras histórias em banda desenhada, também.
Adorava o Lucky Luke mais rápido do Oeste e a Calamity Jane.
Adorava o Michel Vaillant mais rápido do autódromo.
Adorava o Astérix, o Obélix, o Panoramix e o Ideiafix.
Sempre tive uma atracção por poções mágicas que nos tornam mais fortes. Como os espinafres do Popeye.
Adorava o Tintim e perdia-me a rir com os Dupont e Dupond.
Já não recordo quando comecei a ler as histórias da Mafalda. Sei que as minhas tiras preferidas eram as da pequenitates Liberdade.
E aí também, aos onze, vi o meu primeiro filme no cinema, Chá para Dois.
A dois: a minha madrasta e eu.
As memórias mais antigas que tenho com as Letras são uns cubos de plástico coloridos que me ofereceram perto dos meus quatro anos. E de pedir à minha avó que formasse palavras com as letras impressas nas faces dos cubos, as que eu lhe indicava:
Avó, escreve MÃE.
Avó, escreve PAI.
Avó, escreve PANTUFA.
Sempre gostei da palavra. Da sonoridade.
Conheço um rapaz que, em pequeno, se partia a rir quando ouvia dizer BATATA.
E BATOTA também.
A minha avó ficou-se pela terceira classe e, no entanto, ensinou-me assim a escrever aos quatro anos.
Há quem tenha uma teoria– não é minha, mas a certa altura tive hipótese de a comprovar: que as crianças não precisam de aprender a ler, aprendem a escrever e a seguir naturalmente leem o que escrevem.
Naturalmente, pois, após aprender a escrever as palavras com os cubos, desatei a lê-las e a ler muitas mais e a escrever cartas, aos quatro anos, aos meus papás que estavam em África e aos quais me juntaria nesse ano ainda.
Mais tarde, lá pelos seis, sete anos, lembro-me de ler o livro da disciplina de francês da minha tia com a Nicole, o Robert e o Patapouf, percebesse ou não o que lia. Gostava do francês, da sonoridade. E de livros, aussi.
E lembro-me de pegar em papéis branquinhos e em lápis e canetas de todas as cores e escrever e desenhar e pintar e de pensar: quando for grande quero trabalhar com papéis e ter muitos e muitos lápis e canetas de todos os tamanhos e feitios.
Patapouf? Tem piada, mais uma palavra assez intéressant… como Pantufa!
Não têm nada a ver?
A sonoridade! Ouves? Pa-t-uf...
A sonoridade e a cadência das palavras estão na raiz da minha, digamos, característica, vá lá, habilidade especial, ah, ah, para trocar nomes, dizendo um a pensar que estou a dizer o outro.
Guimarães e Santarém. Nada a ver... um no Norte, outro no Sul.
Vila Nova de Gaia e Vila Franca de Xira. Muito menos... a não ser que são ambas Vila, na Palavra, ah, ah, e ambas cidade, na Geografia, ah, ah, metropolitanas…
Funchal e Faro… F e F??? Praia? Temperatura? Je ne sais pas. Vá-se lá saber o porquê destas associações e fusões ao ponto de pensar numa e nomear a outra.
Arrufada e Alfarroba, ah, ah! Afinal não sou só eu!
Tenho um amigo que, cada vez que íamos tomar um café a meio da manhã, pedia sempre uma alfarroba com queijo. Por mais que tentasse, na plena convicção de que, agora, sim, ia acertar, Hoje é uma alfarroba com queijo. O que eu me divertia com ele... porque, sim, eu também fazia dessas. E as histórias que trocávamos sobre as nossas despassaradices eram deveras hilariantes!
Alors… desde que me lembro, que eu, Durmont e Durmond, moi même, adoro palavras, frases, textos, histórias, para além de várias coisas mais, comme il faut.
E adoro pessoas e seres e não seres.
E gosto de observá-los. A eles, aos seres e não seres. Vê-los, escutá-los, mesmo que não tenham a capacidade de falar, estão sempre a contar-me algo.
Então, que egoico seria não passar o que cada um me conta?
Mesmo pessoal e intransmissível.
Pois, porque tenho uma teoria: nada é pessoal e intransmissível.
Tudo é pessoal e ser-al enquanto da unicidade de cada ser.
Tudo irradia de cada ser, cada coisa. Muitas vezes, mais do que muitas, haverá quem tente camuflá-lo... por uns tempos. Não o conseguirá sempre. Cada coisa não esconde, irradia e espelha.
Tudo é transmissível.
E eu Durmont-Durmond, moi même, tenho uma teoria: tudo é A DOIS, mesmo que em grupo.
Mais tarde explico.
E a Dois, somos um só, mas isso são outros quinhentos.
Ontem estava no café a observar seres e não seres, is the question, quando apareceu o Miguel.
Sempre que vejo o Miguel há sempre algo que me surpreende.
Por isso o chamo de Homem do Futuro.

OLÁ!!! Estás bem? Como vai a vida? Aí na cafeínazita...

Estou a beber um descafeinado.

Sim, sim, chama-lhe des...

Que fazes, Miguel?

Tudo menos beber café, ah, ah!
Olha! Tenho uma demais para te contar.

Conta lá Miguel, já sabes que adoro histórias!

Ok, mas não contes a ninguém..., ou melhor, bem, não me pediram segredo...

Parêntesis, tenho uma teoria. Ups, não é minha, é de alguém que ouviu de alguém e que adorou e que me contou e afinal não é uma teoria, é uma espécie de citação ou de definição, ou... bem, um dia contaram-me que alguém lhe deu a seguinte definição de segredo que tinha adorado: um segredo é aquilo que só contamos ao nosso melhor amigo.
Curioso, certo? Eu também acho…
… que esse amigo possa ter outro melhor amigo…

Conta lá, pá! Estás mortinho...

Lembras-te da Bianca?

Hum... Bianca, Bianca... Ah! Já sei! A italiana?

Ela não é italiana. Esteve lá, em Itália... vá, tem ascendência do lado materno, sim, essa. Foi minha mulher, remember?
Nem vais acreditar...

O quê? Está apaixonada!

Agora deste em vidente ou quê? Põe paixão nisso... e não é só, é uma história daquelas!

ebook

Subscreva

Para receber notícias deste e outros livros

ebook preview
* Obrigatório


Please enter a value.
Awesome! We sent you a confirmation email.